CURIOSIDADES


HISTÓRIAS DE MESTRES CONSAGRADOS

Manoel Henrique (1897-1920), Besouro Mangangá ou Besouro Cordão de Ouro foi um lendário capoeirista da região de Santo Amaro, Bahia. Muitos e grandiosos feitos lhe são atribuídos. Diziam que tinha o “corpo fechado”, que balas e punhais não podiam feri-lo. Porém, mesmo as circunstâncias da sua morte são contraditórias. Há versões de que foi num confronto com a polícia, e outras que foi na “vingança”, num ataque de faca pelas costas.

Manoel dos Reis Machado (1900 - 1974), Mestre Bimba foi o criador da Capoeira Regional. O surgimento da capoeira regional foi um grande marco na história deste esporte, que moldou a capoeira e a forma como ela é vista hoje pela sociedade. Mestre Bimba, criador desta modalidade, é o responsável pela capoeira ser hoje jogada em mais de 150 países e pela, cada vez mais próxima, profissionalização do mestre de capoeira.

Mestre Bimba começou sua carreira aos 12 anos de idade, durante o período em que a capoeira, e qualquer outra manifestação da cultura negra era proibida, mestre Bimba conseguiu, junto com a Secretaria de Educação do Estado da Bahia, manter aberta a primeira academia reconhecida de capoeira.

A história da capoeira Regional se inicia quando Mestre Bimba, na década de 30, percebe que a capoeira estava perto de sucumbir diante de sua proibição e pela entrada e assimilação das lutas estrangeiras, cada vez mais presentes no Brasil. Diante de tal situação, Mestre Bimba começa a procurar um meio de modernizar essa luta, sem perder suas tradições.

Mestre Bimba sempre afirmou que o maior diferencial da capoeira regional era a sua seqüência de ensino onde ele passava ao calouro os movimentos básicos para a prática da capoeira e também incutia a noção de parceria, de autoconfiança e etc. Logo após a primeira graduação, ou batismo, Mestre Bimba então iniciava os ensinos mais avançados como as técnicas de floreio, as seqüências de defesa pessoal, e muitas outras levando a considerar o aprendizado da capoeira infinito, já que como ele mesmo falava, o golpes básicos da capoeira são 7, e desses 7 mais sete podem ser feitos e assim por diante, sendo que qualquer movimento do corpo é aceito dentro de uma roda, desde que ele seja regido pelo som do berimbau e mantenha o ritmo da ginga.

Em 1946 foi feita a primeira exibição pública de capoeira como uma apresentação folclórica brasileira, depois dessa primeira experiência ter se mostrado monetariamente interessante, Mestre Bimba começou a fazê-la com dias e horários marcados, propondo algo antes inimaginável para qualquer jogador de capoeira: ganhar dinheiro de forma honesta com a sua arte.

Se estivesse vivo hoje Mestre Bimba teria mais de 100 anos e apesar de tanto ter feito pela capoeira, seu filho, mestre Formiga, afirma que seu pai morreu de “tristeza por não ver a capoeira ser respeitada”. O professor Muniz Sodré, autor do livro “Mestre Bimba – Corpo de Mandinga”, mostra que sua agonia começou ao perceber seu trabalho sendo varrido pelo regime dos generais instalado em 1964, quando então ele se muda para Goiânia, local aonde veio a falecer uma década depois.

Porém, Mestre Bimba é hoje o mestre mais reconhecido entre todos, em 1996 tendo recebido o tardio título de Doutor Honoris Causa concedido pelo corpo universitário da Bahia. Seu nome é conhecido no mundo inteiro, pois é a primeira coisa que qualquer calouro aprende, em qualquer lugar do mundo em que se ensine a sua capoeira regional.

Vicente Ferreira Pastinha (1889 - 1981), Mestre Pastinha, nascido em 1889, dizia não ter aprendido a capoeira em escola, mas “com a sorte”. Afinal, foi o destino o responsável pela iniciação do pequeno pastinha no jogo, ainda garoto. Em depoimento prestado no ano de 1967, no ‘Museu da Imagem e do Som’, Mestre Pastinha relatou a história da sua vida: “Quando eu tinha uns dez anos - eu era franzininho - um outro menino mais taludo do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua - ir na venda fazer compra, por exemplo - e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando dele, sempre. Então eu ia chorar escondido de vergonha e de tristeza.” A vida iria dar ao moleque Pastinha a oportunidade de um aprendizado que marcaria todos os anos da sua longa existência.

“Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu a uma briga da gente. Vem cá, meu filho, ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando raia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia. Foi isso que o velho me disse e eu fui”. Começou então a formação do mestre que dedicaria sua vida à transferência do legado da Cultura Africana a muitas gerações. Segundo ele, a partir deste momento, o aprendizado se dava a cada dia, até que aprendeu tudo. Além das técnicas, muito mais lhe foi ensinado por Benedito, o africano seu professor. “Ele costumava dizer: não provoque, menino, vai botando devagarzinho ele sabedor do que você sabe (…). Na última vez que o menino me atacou fiz ele sabedor com um só golpe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito”.

Foi na atividade do ensino da capoeira que Pastinha se distinguiu. Ao longo dos anos, a competência maior foi demonstrada no seu talento como pensador sobre o jogo da capoeira e na capacidade de comunicar-se. Os conceitos do mestre Pastinha formaram seguidores em todo Brasil. A originalidade do método de ensino, a prática do jogo enquanto expressão artística; formaram uma escola que privilegia o trabalho físico e mental para que o talento se expanda em criatividade. Foi o criador da capoeira angola e grande incentivador da capoeira tradicional como os escravos jogavam.

Fundou a primeira escola de Capoeira Angola, o “Centro Esportivo de Capoeira Angola” no Brasil, no Pelourinho, na Bahia. Hoje, a sede de sua academia é um restaurante do Senai.

Entre seus alunos, estão Mestres como Curió, na atividade, João Grande e João Pequeno, entre muitos outros. Vicente Ferreira Pastinha se calou no ano de 1981.

Durante décadas dedicou-se ao ensino da Capoeira. Mesmo completamente cego não deixava seus discípulos. E continua vivo nos capoeiras, nas rodas, nas cantigas, no jogo. “Tudo o que eu penso da Capoeira, um dia escrevi naquele quadro que está na porta da Academia. Em cima, só estas três palavras: Angola, capoeira, mãe. E embaixo, o pensamento: ‘Mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”.

Antônio Cardoso Andrade, Mestre Brasília, é um dos pioneiros da Capoeira paulista. Aprendeu com Mestre Canjiquinha, de quem foi amigo dedicado. Praticava capoeira na antiga CMTC, com mestre Melo, e na academia do mestre Zé de Freitas, no Brás. Conheceu então Mestre Suassuna, e juntos fundaram a Cordão de Ouro. Mantém academia e casa de espetáculos em São Paulo. É vice-presidente cultural da Federação de Capoeira do Estado de São Paulo, entidade filiada à Confederação Brasileira de Capoeira e à Federação Internacional de Capoeira, e membro do Conselho Superior de Mestres da CBC - seção São Paulo.

Walce Souza, Mestre Deputado, começou na Capoeira com Mestre Osvaldo de Souza, depois prosseguiu com Mestre Bimba. Sua vinculação foi intensa, desde o começo, tornando-se um grande propagador da arte da Capoeira por todo o Brasil, principalmente em Goiás e Mato Grosso. É autor de vários livros sobre a Capoeira. O apelido ganhou de Mestre Bimba, pelo fato de ter sempre muitos amigos e conhecidos. “Só sendo deputado para conhecer tanta gente…”, teria dito o Mestre. E ficou o apelido.




A LENDA DE BESOURO
curiosidades-5Besouro Mangangá era valentão e mandingueiro. Nunca se soube se jogava capoeira, mas viveu e morreu aos 35 anos como uma lenda. Besouro foi preparado desde o ventre de sua mãe. Tinha o corpo fechado: faca não entrava e bala não matava. Um dia, arrumou confusão com a polícia em Santo Amaro (BA). Subiu no morro do cruzeiro e sentou ao pé da cruz. A polícia chegou atirando. Foram embora e ele se levantou como se não fosse com ele. No dia de sua morte, forças sobrenaturais atuaram sobre Besouro. Ele tinha passado por baixo de uma cerca e se arranhou, quebrando a mandinga protetora. Comentou: “Se alguém se botar para mim, hoje eu estou mal”. Por vingança, um fazendeiro do sertão armou uma armadilha. Preparou uma faca de ticum, veneno que não deixa ferimento cicatrizar. Esperou Besouro cruzar seu caminho até conseguir feri-lo com esta faca. Chegando no hospital o médico disse: “Vai ficar bom, mas não será como antes”. Então ele respondeu: “Se não vou ser o mesmo, não convém viver”. Morreu ali mesmo. Contado por Mestre João Pequeno.


Várias músicas de capoeira são sobre Besouro como a música de Amâncio (Espírito Santo) - Faca de Tucum:


Faca de Tucum | matou Besouro Mangangá |

Coro

Diz à história que mataram seu Besouro
foi lá na Bahia, Santo Amaro em Salvador
morreu deitado dentro de rede de corda
de nada valeu mandinga
da tradição não se salvou


A CAPOEIRA
Mistura de luta, dança, arte marcial, cultura popular, música e brincadeira. Foi criada por escravos africanos trazidos ao Brasil e seus descendentes. É caracterizada por movimentos ágeis e complicados, feitos com freqüência junto ao chão ou de cabeça para baixo, tendo por vezes uma forte componente acrobática. Uma característica que a distingue de outras lutas é o fato de ser acompanhada por música.

O nome surgiu a partir dos locais que cercavam as grandes propriedades rurais de base escravocrata referindo-se às áreas de mata rasteira do interior do Brasil. Na época a expressão capoeira se referia também ao negro que fugia e ao ser capturado pelo capitão do mato se defendia como podia usando sua destreza do corpo e táticas de guerra tribal.

Mas a capoeira passou por diversas dificuldades, muitas mudanças e a introdução de instrumentos musicais na capoeira veio posteriormente, estudiosos afirmam por causa da necessidade de disfarçar a dança.

Existem dois estilos principais de capoeira. Um deles é chamado angola e outro estilo chama-se regional ambos os estilos são marcados pelo uso da malandragem - a famosa mandinga - e são bastante ativos no chão, sendo freqüentes as rasteiras, golpes com as pernas, cabeçadas e o uso constante da mente onde o capoeirista cria estratégias para surpreender o adversário.

CRONOLOGIA

1548

Inicia a imigração forçada de escravos africanos para o Brasil.

1712

Primeiro registro escrito do termo capoeira, no Vocabulário Português e Latino, do Padre D. Rafael Bluteau, seu significado contudo não se refere à luta.

25 de Abril
de 1789

Primeira menção da capoeira em registros policias na prisão de Adão, pardo, escravo, acusado de ser “capoeira”,. [Nireu Cavalcanti, “O Capoeira”, Jornal do Brasil, 15/11/1999, citando
do códice 24, Tribunal da Relação, livro 10, Arquivo Nacional,
Rio de Janeiro.

1809

D. João VI criou a Guarda Real de Polícia, para seu chefe foi nomeado o major Nunes Vidigal. Perseguidor notório de capoeiristas, o major Vidigal era por si só um exímio capoeirista.

1813

Antonio de Moraes Silva acrescenta o termo capoeira no Diccionario da Lingua Portugueza composto originalmente
pelo Padre D. Rafael Bluteau.

1821

Carta da Comissão Militar do Rio de Janeiro enviada para
Carlos Frederico de Paula, Ministro da Guerra, requisitando
o retorno dos castigos aos capoeiristas.

1826

O artista francês Jean Baptiste Debret retrata um
tocador de berimbau em “Joueur d’Uruncungo”.

1828

O capoeiras sempre tidos como marginais e desordeiros
ajudando a conter a Revolta dos Mercenários.

1835

Pela primeira vez é retratado o jogo de capoeira pelo alemão Johann Moritz Rugendas no livro Voyage Pittoresque dans
le Brésil com as gravuras “JOGAR CAPOEIRA ou Danse de la guerre” e “SAN SALVADOR”.

13 de Maio
de 1888

A Princesa Isabel decreta a Lei Áurea abolindo
a escravatura no Brasil.

1890

Apesar dos capoeiristas terem um papel heróico na Revolta dos Mercenários e na Guerra do Paraguai, o Governo Republicano instaurado em 1889 continuou a política de repressão à Capoeira do período Imperal, e em 1890 editou um decreto criminalizando a prática da Capoeira.

1932

Mestre Bimba funda a primeira academia oficial de capoeira.

1941

Mestre Pastinha funda a primeira academia oficial de angola.

1949

Mestre Bimba leva alguns alunos à São Paulo para competir com outras lutas. Na década de 1950, Mestre Bimba viajou vários estados apresentando a capoeira. Começa a expansão da capoeira baiana pelo território brasileiro.

1953

Em Salvador, Mestre Bimba e seu alunos se apresentam no Palácio do Governo para o governador da Bahia Juracy Magalhães e o presidente da República Getúlio Vargas. Getúlio teria dito então: “A única colaboração autenticamente brasileira à educação física, devendo ser considerada a nossa luta nacional”.

1966

Mestre Pastinha leva uma comitiva de capoeiristas ao Premier Festival International des Arts Nègres, em Dakar. A capoeira começa a expandir para o mundo.

1967

Fundada Cordão de Ouro na capital de São Paulo,
Mestre Suassuna e Mestre Brasília.

1969

Mestre Brasília fundou a Associação de Capoeira São Bento Grande e Mestre Suassuna continuou com a Cordão de Ouro.

1972

Mestre Bimba entrega certificado ao
Mestre Suassuna pelo trabalho realizado
com a capoeira em São Paulo.

1980

Mestre Cícero começa a treinar com Mestre Tarzan.

1988

Mestre Cícero e Mestre Kito fundam a Ritmo Brasil.

1991

Mestre Cícero se filia a Cordão de Ouro,
a convite de Mestre Suassuna.

2005

Mestre Suassuna entrega certificado ao Mestre Cícero
no Festival de Capoeira em São Paulo.